Comitê de Gerenciamento Bacia Hidrográfica do 

Rio Tubarão e Complexo Lagunar

O Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão, do Complexo Lagunar e bacias contíguas participou no dia 6 de maio de reunião do Conselho Municipal de Desenvolvimento Pesqueiro e Rural de Laguna (CMDPR), onde foram discutidos os projetos de lei aprovados na Câmara Municipal, o requerimento do poder legislativo de manutenção dos trapiches comunitários, a votação anual da mesa diretora do CMDPR e a abertura de novas pautas para discussão dos conselheiros ao longo do ano. A reunião ocorreu no auditório da Prefeitura Municipal de Laguna, no Centro Administrativo Tordesilhas. 

Na reunião, a plenária realizou votação referente à composição da mesa diretora anual do Conselho. Ficou aprovado, por maioria dos presentes, a manutenção da atual presidência do CMDPR. Dessa forma, o presidente Abdon de Oliveira Vieira, Secretário Municipal de Pesca e Agricultura, foi reconduzido ao cargo.

A manutenção dos trapiches comunitários do município de Laguna foi ponto de pauta do encontro. Os conselheiros relataram a situação dos 17 trapiches comunitários e a necessidade de melhorias estruturais nessas infraestruturas, com destaque para o trapiche da localidade de Vila Vitória. 

Representando o Comitê, Yuri Kuzniecow, destacou a importância da governança hídrica em ações articuladas entre diversas instâncias que resultem em benefícios para os municípios e as comunidades pesqueiras da região. Nesse contexto, ele apresentou o projeto de levantamento batimétrico preliminar do Complexo Lagunar Sul Catarinense por Batimetria Derivada de Satélite, idealizado pelo Instituto Canto das Águas, com abrangência inicial prevista nos municípios de Imaruí, Imbituba, Laguna e Pescaria Brava. O projeto tem como parceiros técnicos o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Campus Garopaba, que será responsável pela aplicação das etapas metodológicas, o Comitê da Bacia, as prefeituras, a Marinha, as colônias de pescadores dos municípios participantes e demais atores regionais.

Ainda durante sua manifestação, Yuri sugeriu como pauta para a próxima reunião a discussão sobre a implementação de réguas de maré em locais estratégicos do complexo lagunar. A ferramenta atua como referência local para calibração dos dados derivados das imagens de satélite e com isso auxilia no monitoramento das condições das lagoas e marés dos municípios. O projeto propõe a instalação de réguas em diferentes municípios como estratégica de integração regional, educação ambiental e fortalecimento da rede de monitoramento.

 

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Na manhã desta quarta-feira, 14/6, os técnicos do Comitê de Gerenciamento das Bacias Hidrográficas dos Rios Tijucas e Biguaçu, e bacias contíguas, Tiago Manenti Martins (engenheiro) e William Wollinger Brenuvida (jornalista), visitaram o deputado Padre Pedro Baldissera (PT/SC), presidente da Comissão de Pesca e Aquicultura (CPA), e do Fórum Parlamentar para Preservação do Aquífero Guarani e das Águas Superficiais, da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). A visita teve três propósitos: expor o Projeto Informar: Tubarões e raias, que tem por objetivo promover a sensibilização ambiental a partir do olhar do pescador em relação à pesca na Baía de Tijucas; buscar apoio para atividades dos comitês de bacias no Estado; e mostrar alguns projetos do Comitê Tijucas-Biguaçu, entre os quais o curso de capacitação comunitária que tem apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Entre os temas debatidos o apoio às comunidades pesqueiras e aos pescadores artesanais dos municípios de Bombinhas, Governador Celso Ramos, Porto Belo e Tijucas (onde o Projeto Informar atua); a abertura de diálogo para facilitar as licenças de pesca; a integração com diversos segmentos sociais para dar maior visibilidade aos comitês de bacias, entendendo que a água dos rios tem fundamental importância no desenvolvimento da pesca e da maricultura nas baías de nossa região. Participaram da conversa os assessores Murilo Silva, jornalista; e Idelvino Furlanetto, que atua no Fórum das Águas.

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Sábado, 03 Junho 2017 10:22

COM A PALAVRA, O PESCADOR

Projeto Informar verifica a existência de tubarões e raias na Baía de Tijucas, ouvindo e sensibilizando o homem do mar. Até 100 pescadores serão entrevistados nos municípios de Bombinhas, Governador Celso Ramos, Porto Belo e Tijucas.

Por William Wollinger Brenuvida, jornalista

Emparelhadas na praia da Tainha ou no Mariscal, no mar de fora do Canto Grande, ou na enseada de Zimbros, as canoas bordadas disputam palmo a palmo de areia com as embarcações de boca larga, os botes de popa chapada, como dizem os pescadores mais antigos de Bombinhas. Naquele que é considerado o menor município catarinense, Bombinhas é, dos quatro municípios que compõem a Baía de Tijucas, aquele que reúne o maior número de canoas bordadas, as canoas de um pau só, de garapuvu, que os indígenas guarani-mbya chamavam de pirogas. O ensinamento para pesca, aliás, veio nessas embarcações, com os imigrantes açorianos e madeirenses aprendendo e desafiando o mar, para muito além das ilhas que compõem o arquipélago da Grande Florianópolis e Costa Esmeralda, em busca dos mais variados tipos de cações e raias.

Aos 66 anos de idade, rugas do tempo, rosto amorenado dos dias de sol, o corpo curvo se dá para o chumbo preso na rede de malha da mesma forma que o vento de leste ainda faz soprar no mar da Praia da Tainha. As canoas bordadas permanecem na praia. Cadê as tainhas? Pergunta uma voz rouca, assentada nas redondilhas de esses e erres sem pontos e vírgulas, do pescador aposentado Dinizarte Casimiro Silva Filho. Nascido em uma família de nove irmãos, o pai foi pescador e a mãe cuidou de todos eles. Após muitos anos de mar, a pesca para ele é coisa de domingo, como nos Açores, terra dos antepassados dele que vieram a partir de 1748. A experiência de Dinizarte, porém, é incontestável na Praia da Tainha, também em Ganchos, do outro lado baía, onde ele lembra mais de vinte nomes com quem pescou em mais de 40 anos de mar. Ele se considera um “camarada” e não patrão, termo que designa o regime dos camaradas que vigorou na região no século XX. Pescou cação? Perguntamos. Pesquei pouco! Ele responde. No que ele arremata: A pesca do cação, aqui, sempre foi a mais perigosa. Fui pra ver como era. E até hoje fico me perguntando como se pescava daquele jeito, sem qualquer proteção, sem equipamento, podendo morrer sem recurso. Mas, não se morre no mar de qualquer modo? Perguntamos. Morrer, morre. Você vai aí, milhas e milhas, três ou quatro dias de casa, e mar não é igual a terra. Mas, é preciso ter condições pra pescar. Antigamente, não tinha motor, e a gente remava muito. Hoje, temos mais recursos. Dinizarte olha o mar que se agiganta, que na Tainha encontra parte da Ilha do Arvoredo.

Projeto Informar busca interação com pescadores

Desde que as pesquisas do Projeto Informar: tubarões e raias, financiado pelo Instituto Linha D’Água de São Paulo, começaram em fevereiro deste ano, os pesquisadores do Comitê de Gerenciamento das Bacias Hidrográficas dos Rios Tijucas e Biguaçu, e bacias contíguas já entrevistaram mais de 75 pescadores, nos municípios de Bombinhas, Governador Celso Ramos e Tijucas. O projeto ainda alcança o município de Porto Belo que possui, pelo menos, duas importantes localidades pesqueiras: o Araçá e a Santa Luzia. Em Porto Belo as entrevistas serão retomadas na próxima semana. O projeto que tem por finalidade a sensibilização do homem do mar, além do encontro de realidades diversas, ouve o pescador que já tem voz, uma voz rouca, sufocada.

Em Ganchos, atual Governador Celso Ramos, as canoas bordadas estão desaparecendo rapidamente. Neste município, os pesquisadores encontraram relatos de uma época onde se pescou muito, e relatos que dão a tonalidade de uma nostalgia que se mistura a insatisfação de regras pesqueiras confusas, e falta de apoio ao pescador. As comunidades que cederam entrevistas foram: Canto dos Ganchos, Costeira da Armação, Fazenda da Armação, Armação da Piedade, Camboa e Palmas.

A pesca artesanal conta com um aliado quase indomável em Tijucas, o rio que atravessa e batiza a cidade. Se as águas do rio ainda são piscosas, há quem sempre se aventurou para além da temível barra desse rio. Hoje muito assoreada a barra é, inclusive, um problema para as constantes enchentes da cidade, mas há um outro quesito muito importante: a criação de peixes. Os pescadores mais idosos, alguns como mais de 90 anos, como é o caso de Teclo Mariano Rocha e Valdeci de Souza, contam que antigamente o Rio Tijucas produzia muito mais peixes e pequenos camarões, e que, nos dias de hoje, o rio está muito raso e quase não oferece resistência ao mar. “Nós sempre dependemos do rio e do mar. Toda vida. Sem rio, o mar não produz peixe. Sem mar, o rio perde seu encanto.”, conta Teclo Mariano Rocha.

Entre os pescadores aposentados ou na ativa, que concederam entrevista ao Projeto Informar, na cidade de Tijucas estão: Ademir Formento, Ademir Laudelindo da Silva, Almir Machado, Amiltom dos Santos, Dário Luiz Rocha, Edenilson da Silva, Edevaldo Pinto de Melo, Hélio de Oliveira, Ilson José Wollinger, João Sargilo Saramento, José Augostinho de Souza Rosa, José Geraldo Porcíncula, Lauro José Porcíncula, Márcio Formento, Marcio Quilter Marques, Mario Cesar Rocha, Maruzan de Souza, Murilo Wollinger de Souza, Olindino Jovito Machado Filho, Paulo Flortini, Ronaldo Gonçalves Rocha, Sebastião Manoel da Silva, Teclo Mariano Rocha, Valdeci de Souza e Zalmo Machado Nascimento.

De acordo com o engenheiro de aquicultura Tiago Manenti Martins, o Informar tem essa característica de ouvir o pescador e buscar um diálogo entre pesquisa e experiência de quem pesca. “Visitar as áreas de pesca e saber desse processo por meio de estórias e relatos muito vivas na memória do pescador, nos dá a certeza de que é preciso ainda fazer muito pela pesca em nossa região.”, afirma Tiago Manenti Martins que é técnico do Comitê Tijucas-Biguaçu.

Os pesquisadores entraram em contato com as colônias de pescadores; chefia da reserva do Arvoredo, e o laboratório de elasmobrânquios (tubarões e raias) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) , além de escritórios da Epagri. O projeto finaliza as 100 entrevistas em junho, pretendendo entregar em setembro, para cada pescador, um livro e documentário com relatos dessas vivências na Baía de Tijucas.

(*) William Wollinger Brenuvida, jornalista e técnico dos Comitês Tijucas-Biguaçu, e Cubatão-Madre. É pesquisador no Projeto Informar: cações e raias.

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