ENTREVISTA com Hector Silvio Haverroth
O engenheiro agrônomo e servidor da Epagri, Hector Silvio Haverroth, integra o Comitê Itapocu desde 2012. Nesses 14 anos de atuação já compôs Câmaras Técnicas do Comitê e presidiu o órgão colegiado entre 2021 e 2023. Em entrevista, o representante-membro relata momentos importantes do Comitê e ressalta a necessidade da valorização da entidade perante a sociedade e os órgãos estatais.
Quais avanços na gestão das águas da bacia você destacaria ao longo desses anos de participação no Comitê?
O principal avanço foi a elaboração do Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Itapocu. O documento deu um norte para o uso da água dentro da bacia e, na minha visão, é o principal resultado produzido pelo Comitê. O envolvimento das entidades e seus representantes na construção do Plano marcou bastante a trajetória do Comitê. Os temas e eixos eram trabalhados a partir de diagnósticos e estudos, que depois eram levados para discussão nas câmaras técnicas.
Qual desafio o Comitê Itapocu enfrenta nos dias atuais na atuação da governança das águas?
Vejo um problema sério na forma como os comitês são tratados dentro da legislação e pelos órgãos públicos. Em muitos casos, os comitês não são consultados sobre decisões importantes, como a liberação de licenciamento para grandes usuários de água dentro da bacia. Isso enfraquece a atuação do comitê. Além disso, muitas entidades executoras acabam ficando muito presas à burocracia interna, com pouca possibilidade de desenvolver ações mais práticas junto à sociedade.
Quais problemas ambientais se tornaram mais relevantes na Bacia do Rio Itapocu e nas bacias contíguas nos últimos anos?
Um tema que se tornou cada vez mais visível foi o aumento das inundações. Elas já existiam, mas passaram a ocorrer com mais frequência e intensidade. Outro tema importante é a falta de água, que já gerou alguns conflitos entre os usuários. Nos últimos dois ou três anos a instalação de hidrelétricas tem provocado conflitos, especialmente por causa dos impactos sobre áreas produtivas e sobre o regime das águas. Também é preciso destacar os episódios de contaminação das águas com resíduos tóxicos que têm sido mais frequentes.
Qual você considera hoje o principal desafio para a gestão das águas na bacia?
O principal desafio continua sendo o reconhecimento e a valorização do Comitê. Se o Estado, as prefeituras e a sociedade não enxergarem o Comitê como uma instância importante, ele perde força. O Comitê tenta mediar conflitos e discutir o uso da água, mas, quando os órgãos públicos não o consideram, a sua atuação fica enfraquecida. O Comitê foi criado para atuar na mediação de conflitos entre usuários da água, especialmente em situações de excesso ou de falta. Se os órgãos municipais e estaduais passassem a consultar o Comitê sempre que houvesse questões ligadas ao uso da água, seja em conflitos, seja na liberação de novos empreendimentos com grande consumo hídrico, o reconhecimento seria maior. O Comitê tem capacidade técnica e produz discussões consistentes, mas precisa ser ouvido para que isso tenha efeito prático.
Depois de tantos anos participando do Comitê, o que essa experiência deixa de aprendizado?
O principal aprendizado foi a necessidade de persistência. Não é fácil permanecer tanto tempo numa instituição discutindo temas que muitas vezes demoram para apresentar resultados. Também levo como aprendizado, a importância do diálogo. É preciso valorizar o trabalho coletivo dos membros do Comitê, que se reúnem, discutem, elaboram documentos e buscam resultados concretos para a Bacia.
Nota: Matéria elaborada em 25/08/2026 e publicada após o período do defeso eleitoral
Escrita pela Assessoria de Comunicação dos Comitês de Bacia da Vertente Litoral de SC
Priscila Oliveira


